O Secretário de Estado do Comércio da Espanha, juntamente com especialistas de ambos os países, participará de uma análise sobre "O Mercosul e a construção de alianças na nova ordem geopolítica"
A Fundación Consejo España-Brasil e a Secretaria de Estado de Comércio do Ministério da Economia, Comércio e Empresa da Espanha organizaram em São Paulo a primeira edição do Diálogo Estratégico Espanha-Brasil, com o apoio do Instituto Cervantes de São Paulo e a colaboração da Universidade de São Paulo (USP) e do centro de pensamento CEBRI. O encontro foi realizado no âmbito da viagem da secretária de Estado de Comércio, Amparo López Senovilla, pelos quatro países do Mercosul, poucos meses após a primeira cúpula bilateral de alto nível entre Espanha e Brasil.
O evento contou com a presença do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Rodrigo Zerbone, e, sob o título «Mercosul e a construção de alianças na nova ordem geopolítica», reuniu autoridades públicas, empresas, academia e corpo diplomático para analisar o papel dos dois países no novo cenário internacional após a entrada em vigor provisória do acordo União Europeia-Mercosul.
A jornada foi aberta pelo diretor do Instituto Cervantes de São Paulo, Daniel Gallego, que reivindicou a cultura como ferramenta de diplomacia pública e espaço a partir do qual se constrói a confiança que torna possíveis as alianças econômicas, e destacou o papel das Fundaciones Consejo como instrumento de colaboração público-privada da política externa espanhola.
De parceiros comerciais a aliados estratégicos
Na mesa de diálogo «Espanha e Brasil na nova arquitetura global», moderada pelo jornalista da GloboNews Marcelo Lins, Amparo López Senovilla defendeu uma «abertura inteligente, estratégica e pragmática» diante da fragmentação do comércio internacional, e ressaltou que o principal valor do acordo UE-Mercosul é a mensagem política, geopolítica e geoeconômica que ele envia: a transformação de parceiros comerciais em aliados estratégicos. Ela destacou a intensidade da relação bilateral —um comércio em torno de 11 bilhões de euros e um investimento espanhol acumulado superior a 46 bilhões, que situa a Espanha entre os maiores investidores no Brasil— e o potencial do acordo, que cria um mercado de 700 milhões de consumidores e poderia gerar até 22 mil empregos na Espanha e mais de 400 mil no conjunto da União Europeia.
O secretário-executivo, Rodrigo Zerbone, destacou que o acordo, concluído após mais de vinte anos de negociação, não é um ponto final, mas o início do aprofundamento da relação entre Brasil e Europa, e explicou que o governo brasileiro o concebe como um acordo de integração produtiva: a oportunidade é construir uma parceria conjunta nas cadeias de valor em formação —economia verde, biocombustíveis, transformação digital, minerais críticos—, tão relevante em termos econômicos quanto de segurança de longo prazo.
Pelo setor privado e em representação da presidência da Fundación Consejo España-Brasil, Solange Ribeiro, vice-presidente executiva da Neoenergia, ressaltou que a credibilidade, a segurança jurídica e a estabilidade regulatória explicam a aposta de investimento da Iberdrola no Brasil, e que o acordo traz a previsibilidade que demanda um capital disposto a investir em eletrificação, inteligência artificial, data centers e cadeia verde.
Brasil em perspectiva
A mesa-redonda «Brasil em perspectiva: prioridades estratégicas e projeção internacional», moderada pela jornalista econômica da CNN Brasil Thais Herédia, reuniu o professor Pedro Dallari, coordenador do Centro Ibero-Americano (CIBA) do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP); Hussein Kalout, acadêmico e ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República; María Dolores Montoya, diretora da Faculdade de Economia da USP; e Luciana Galán, diretora para o Brasil da International Finance Corporation (IFC), do Grupo Banco Mundial.
Os palestrantes coincidiram em apontar o acordo UE-Mercosul como o principal avanço geopolítico recente e na conveniência de que a relação birregional se estenda à cooperação científico-tecnológica por meio de estruturas permanentes de pesquisa, assim como na oportunidade de que Europa e América Latina formem um polo próprio de coordenação em um cenário internacional que tende à bipolaridade.
No plano econômico, foram abordados os grandes desafios internos do país —a produtividade, a sustentabilidade fiscal e a desigualdade— junto com suas fortalezas: o Brasil constitui o maior programa da International Finance Corporation e o segundo maior portfólio do Banco Mundial, com um programa de 12 bilhões de dólares no último exercício, e a Espanha é o quarto maior investidor privado no país, o terceiro em lucros gerados e o primeiro em lucros reinvestidos.
Um novo ponto de partida
No encerramento, a secretária de Estado de Comércio, Amparo López Senovilla, reiterou que o acordo UE-Mercosul «não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida», convocou a dotá-lo de conteúdo a partir das administrações, da academia, da sociedade civil e das empresas, e situou a Espanha como ponte natural entre a Europa e a América Latina, capaz de oferecer previsibilidade, confiança e conexão com base em valores compartilhados.
Com esta primeira edição, a Fundación Consejo España-Brasil e a Secretaria de Estado de Comércio inauguram um espaço de referência para o diálogo estratégico bilateral, em um momento de especial dinamismo da relação entre os dois países.
O primeiro Diálogo Estratégico Brasil-Espanha poderá ser acompanhado online através do canal de YouTube do Instituto Cervantes de São Paulo
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